Seu grito anônimo ecoa
como gotas prateadas
no horizonte
dos meus ouvidos de pássaro acorrentado
...Oh, voz doce
que no silêncio da madrugada
clama por meu corpo pop
...Oh, Carmenzita dos lábios sujos de mel
...Onde estás agora
que os cães me olham
e me atacam (?)
Conteúdo e forma; )
Dois elementos constituem a obra de arte:
O elemento interior, e o elemento exterior;
O primeiro, tomando à parte, é a emoção da obra do artista.
Essa emoção possui a capacidade de suscitar uma emoção fundamentalmente análoga na alma do espectador.
Enquanto a alma está ligada ao corpo, normalmente ela só pode entrar em vibração por intermédio do sentimento. Este é, pois, a ponte que conduz do material ao imaterial (o espectador).
Emoção – sentimento – obra – sentimento – emoção.
O elemento interior da obra é o seu conteúdo. Deve, portanto, haver vibração da alma. Se esta não existe, não pode nascer uma obra. Em outras palavras, só pode haver uma aparência de obra.
O elemento interior, criado pela vibração da alma, é o conteúdo da obra. Nenhuma obra pode existir sem conteúdo.
Para que o conteúdo, que de início vive “abstratamente”, se converta em obra, é preciso que o segundo elemento – o elemento exterior – sirva para a materialização. Eis por que o conteúdo aspira a um meio de expressão, a uma forma “material”.
A obra é, destarte, a fusão inevitável e indissolúvel do elemento interior com o elemento exterior, ou seja, do conteúdo com a forma.
O elemento determinante é o conteúdo. Da mesma forma que a palavra não determina o conceito, mas o conceito a palavra, o conteúdo determina a forma: a forma é a expressão material do conteúdo abstrato.
A escolha da forma é, pois, determinada pela necessidade interior, que constitui propriamente a única lei imutável da arte.
Uma obra nascida da maneira acima descrita é “bela”. Uma bela obra é, por conseguinte, a ligação regular de dois elementos, o interior e o exterior. Tal ligação confere à obra sua unidade. A obra torna-se sujeito. Enquanto pintura, ela é um organismo espiritual que, como todo organismo material, consiste num grande número de partes diferentes.
Estas, tomadas isoladamente, são desprovidas de vida; como um dedo separado da mão. A vida do dedo e sua ação racional são condicionadas por sua combinação racional com as demais partes do corpo. Essa combinação racional é a construção.
A obra de arte está sujeita à mesma lei que a obra natural: à lei da construção. Suas diferentes partes tornam-se vivas pelo conjunto.

