Ouvir música se tornou para mim um grande
martírio, para não dizer um inferno, sem
exagero. Um rock pesado dos Stooges ou do Rammstein me deixa claustrofóbico. Uma música sacra ou lenta como uma bossanova ou new-age me parece adocicada
demais, pura alienação de uma realidade cristalina. Essa, a realidade então,
tem me sugerido algo caótico e sem sentido. Cubro a cabeça, e antes
mesmo que adormeça já começo a ter pesadelos. E quando consigo dormir, os
sonhos me chegam através de imagens esvanecidas, por demais infantis e sem
sentido, idiotas. Os alimentos na boca não têm mais sabor. As tardes estão
sempre abafadas, e o Sol parece não ser tão redondo, o que me faz pensar
que talvez isso seja o início da velhice, uma espécie de menopausa masculina.
Então eu mato meu tempo escrevendo coisas assim:
FIAT LUX
Eu não controlo a miguelage
Meu ser transborda
misericórdia a todo instante
me perco
a caneta esferográfica
os óculos a dentadura
pendrive
a carteira de identidade
documentos
a arma e as balas
Só não perco a cueca
e a cabeça...
(mas que cara de pau esse Sr. Bommel,
heim?)
Escrevo assim mesmo, sem vírgulas,
procurando deixar bem claro que as palavras relaxem e se liguem uma as
outras como quiserem, como preferirem, como se fossem vagões de um trem de
passageiros, ou um cargueiro, o que me leva a refletir e imaginar
que:
O demônio está sugando todo o conteúdo
do meu pendrive todas as vezes
que acesso a internet;
essa Rede dos Infernos
Posso acreditar no que quiser
Não tenho o rabo preso
com nada
por isso pretendo me livrar
o mais breve possível
desse pessoal idiota da livraria
desse estilo privativo e virtual de
se apegar à vida
um modo que me mantem preso ao
Anti-Mundo
e sair por aí, anônimo
quando então, ninguém mais
poderá me sugar (espero)
Detesto ser sugado
Não suporto também que me chamem de
babaca...
Hoje cedo, quando saía do escritório em
direção a kit, uma vozinha de cabelos azuis e cara de mexerica morgot me
chamou, e disse: “Ei, babaca! Espere aí”. Olhei feio para ela, e fiz-lhe um
gesto obsceno com o dedo médio, e em seguida saí correndo, tomando o rumo da
Dr. Quirino, sem lhe dar atenção sem prestar-lhe qualquer auxílio, apenas por
que ela havia me chamado de babaca.
Tudo, menos isso, babaca
termo jocoso e infeliz...
Me chamem de tudo,
tolo, ingênuo, leigo, magnanimo,
macambúzio, gerânio...do que quiser, mas
nunca de babaca, por favor
Isso eu não quero
Eu sou, apenas isso
Eu sou...
Não me pareço com nada
Não pertenço a nada,
apenas ao Deus em que eu creio
e que não é o mesmo em que você crê
mas que, certamente, não é outro, é o
mesmo
o que nos criou
E não sabemos para quê
Apenas para sermos
Por isso te digo, eu sou
o Sr. Bommel
As nuvens se deslocam em direção a
Bragança Paulista, como se Deus estivesse aplicando no céu um efeito que
normalmente eu uso em telas do paintbush ou do Corel, chamado Skizz.
Inesperadamente um raio corta o céu; tambores tocam atrás das nuvens e as
pessoas se desesperam. Carros buzinam. Parece haver alguma interferência
eletromagnética no pessoal lá embaixo. Talvez partículas cósmicas estejam
provocando isso. Algumas pessoas trabalham muito, o tempo todo. Só sabem
trabalhar. Outras não fazem nada, não sabem fazer, ou sofrem de preguiça.
Utilizo agora numa pintura um pouco de tons brancos, jogando-os contra um fundo
negro, procurando um degradé suave, em direção ao cinza, e, finalmente, fazendo
com que as espumas brancas se arrebentem contra uma montanha monolítica em
forma de mochila.
